A Arena Fonte Nova ganhou um significado diferente após o encerramento da partida entre Bahia e Internacional, disputada na noite deste domingo (30). Enquanto torcedores e jogadores deixavam o estádio, 180 mulheres permaneceram nas arquibancadas como parte da campanha “Terceiro Tempo”, iniciativa de conscientização e enfrentamento à violência doméstica.
A ação foi promovida pelo Esporte Clube Bahia SAF em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a agência Propeg, dentro da programação do Agosto Lilás, período dedicado à conscientização sobre a violência contra a mulher.
Influenciadoras, torcedoras, funcionárias do clube e convidadas ocuparam o setor Leste da Fonte Nova depois do apito final. Durante a ação, um dos principais símbolos da campanha apareceu no estádio: o letreiro exibiu a frase “Hoje, ficar no estádio é mais seguro do que em casa”.
A escolha de 180 participantes não foi aleatória. O número faz referência ao Ligue 180, canal nacional de atendimento que recebe denúncias, presta orientações e auxilia mulheres em situação de violência em todo o país.
Dados mostram aumento da violência em dias de jogos
A campanha foi baseada em dados apresentados na segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo o levantamento de 2026, os registros de ameaça contra mulheres apresentam aumento de 27,4% nos dias em que há partidas de futebol. Já os casos de lesão corporal decorrente de violência doméstica crescem 28,8% nessas datas.
O impacto é ainda mais significativo entre mulheres de 15 a 29 anos. Nessa faixa etária, os registros de ameaça e lesão corporal chegam a apresentar crescimento de 44% nos dias de jogos.
O estudo, porém, não aponta o futebol como causa da violência. A análise indica que as partidas podem funcionar como um contexto de potencialização de comportamentos violentos em ambientes familiares nos quais situações de violência já existem.
Campanha busca dialogar com o público masculino
A Propeg destacou que a iniciativa também pretende levar a discussão para dentro de um ambiente tradicionalmente associado ao público masculino.
A diretora de Criação da agência, Sabrina Mesquita, afirmou que o objetivo é ampliar o debate e fazer com que a violência contra a mulher seja discutida também nos espaços ligados ao futebol.
Para o CEO do Bahia SAF, Raul Aguirre, o clube tem a possibilidade de utilizar a grande mobilização proporcionada pelo futebol para abordar questões que ultrapassam as quatro linhas.
Segundo Aguirre, a presença das 180 mulheres na arquibancada transforma o estádio em um espaço de conscientização e reforça a importância de denunciar situações de violência doméstica.
UNFPA destaca papel dos homens na prevenção
A representante do UNFPA no Brasil, Florbela Fernandes, também ressaltou que o enfrentamento à violência de gênero precisa envolver homens e meninos.
De acordo com ela, ações de prevenção devem trabalhar a transformação de comportamentos e normas sociais que contribuem para a naturalização da violência, além de incentivar modelos de masculinidade baseados no respeito, cuidado e igualdade.
A campanha “Terceiro Tempo” segue uma das recomendações apresentadas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: a criação de iniciativas permanentes envolvendo clubes, federações, torcedores e poder público no combate à violência contra as mulheres.
Com a ação na Fonte Nova, o Bahia utilizou um dos principais símbolos da paixão do torcedor tricolor para chamar atenção a um problema que ultrapassa o futebol e chega ao ambiente doméstico.

